A única menina da sala!

Autor : Lara Franciulli
Data : Mar 26 2019

A única menina da sala: essa era eu em todas as aulas de preparação para as Olimpíadas de Informática. Conforme o tempo foi passando, esse cenário se tornou familiar e eu não imaginava que um lugar com mais meninas pudesse ser significantemente diferente. Além disso, eu tinha o apoio da minha mãe: como professora de Matemática, ela sempre me encorajou a estudar qualquer tema que eu gostasse e foi por causa dela que eu decidi participar das olimpíadas. No começo, eu estava com medo de ir às aulas: pensava que tudo aquilo seria muito difícil para mim academicamente. Minha mãe insistiu e até brincou: “se você não for, eu vou!” Eu me lembro de sua felicidade quando eu levei para a casa a primeira lista de problemas como lição de casa. Nós nos sentamos na mesa da sala e começamos a pensar em possíveis soluções. Apesar de esse comportamento ter sido um grande incentivo para mim, ele também me preveniu de perceber o problema envolvendo a desigualdade de gênero no mundo das olimpíadas, algo que ela também ainda não tinha se dado conta. Nas premiações, quando eu era uma das únicas 10 meninas premiadas – dentre 100 competidores – ela se sentia orgulhosa de mim: “É muito bom ser uma das poucas meninas, é como um prêmio adicional!” Ela indiretamente me ensinou que eu não precisava do feminismo e que o gender gap presente nas Ciências Exatas era natural: em minha cabeça, existiam poucas meninas nessas áreas simplesmente porque elas não se interessavam por esse estudo. Essa perspectiva mudou completamente quando eu participei do Mind The Gap em 2017, uma iniciativa do Google para promover mais mulheres na Computação, que reuniu em um só lugar mais de 100 alunas do Ensino Médio para falar sobre tecnologia. Como nós logo percebemos, aquele era um ambiente completamente diferente do qual estávamos acostumadas. No MTG, havia mais selfies, abraços, e apoio emocional: sororidade. Eu olhava ao meu redor e via ao meu lado engenheiras e meninas com a mesma curiosidade que eu. Foi aí que entendi o verdadeiro significado de representatividade: eu senti que pertencia àquele lugar porque eu estava cercada por pessoas com as quais eu me identificava, o que não acontecia com tanta frequência no ambiente olímpico. No último dia de atividades, eu voltei para o meu quarto e disse para a minha amiga Patrícia: “eu acho que sou feminista”. Na verdade, eu estava declarando mais para mim mesma do que realmente conversando com ela. Diferentemente do que eu havia pensado antes, eu não só precisava do feminismo, como eu também já havia indiretamente abraçado a causa. Eu fui feminista quando eu disse para a minha avó que ela era linda, mesmo que ela pensasse que seus 90 anos a tinham deixado feia. Eu fui feminista quando eu encorajava outras meninas a participarem das olimpíadas, mesmo que elas pudessem ser melhores do que eu. Eu fui feminista quando eu não desisti de STEM, mesmo que eu estivesse, em todas as aulas, cercada somente por garotos. E, agora digo: eu SOU feminista. Durante essa experiência, eu percebi que o feminismo é um processo. A partir do momento em que me dei conta disso, o meu ativismo aumentou. Essa descoberta me tornou mais confiante para ser eu mesma, porque eu entendi que minhas ações tinham um sentido adicional: elas também eram políticas. Eu deixei o evento como uma pessoa totalmente diferente, determinada a espalhar a ideia do Mind The Gap para que toda menina pudesse se sentir como eu me senti. Se aquelas inspiradas nesse processo decidirem continuar a corrente, o gender gap vai diminuir. Vamos hackear o sistema. E não haverá mais uma menina sozinha em uma sala.

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